domingo, 20 de junho de 2010

Heroína no país das maravilhas

A Rainha 
Vermelha, Alice e a Rainha Branca
“A única forma de alcançar o impossível é acreditar que é possível”. Essa é uma das primeiras frases que aparecem no filme Alice no País das Maravilhas, dirigido por Tim Burton, com roteiro de Linda Woolverton, baseado no livro homônimo de Lewis Carroll. Ela é proferida pelo pai de Alice quando ela ainda era criança.             
Desde menina, quase todas as noites, Alice tem um mesmo sonho com um mundo mágico, cheio de animais falantes, criaturas diferentes. Esse sonho a perturba e a faz pensar que está enlouquecendo. Em uma noite, a menina de cabelos dourados pergunta a seu pai se está ficando louca e recebe a resposta “Sim, você está louca. Mas vou te contar um segredo. As melhores pessoas são”.
O tempo passa, o pai da garota morre e a história é retomada com Alice (interpretada por Mia Wasikowska) aos 19 anos. Considerada distraída e esquisita pelas pessoas ao seu redor, a jovem Alice é conduzida para seu noivado arranjado. O lorde que seria seu futuro marido não dá atenção às suas divagações imaginativas e a reprime: “Seria bom guardar sua imaginação só para você. Na dúvida, fique calada”. Alice é, então, pedida em casamento; todos esperam que a donzela aceite ao ilustre pedido, mas isso não acontece.  Alice vai contra os costumes e valores morais de sua época, foge dessa imposição e, então, corre seguindo o Coelho Branco e cai num buraco que a leva ao País das Maravilhas.
Nessa terra mágica, a moça de longas madeixas cacheadas fica cercada de coisas, a primeira vista, impossíveis e, por isso, acredita que tudo não passa de um sonho. Nesse mundo subterrâneo, Alice encontra várias criaturas como o Gato de Cheshire, os gêmeos Tweedledee e Tweedledum, a Lebre e o Chapeleiro Maluco. Apesar de sua resistência inicial, Alice acaba sendo guiada para seu destino já previsto pelo oráculo da Lagarta Azul. Destino esse que envolve a missão de matar o Jaguadarte (originalmente Jabberwocky) usando a Espada Vorpal para restabelecer o império da bondosa Rainha Branca (Anne Hathaway) sobre a derrota da malvada Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter). Alice só consegue realizar aquilo para que foi designada quando se dá conta de que aquilo não era um sonho e que os sonhos de sua infância que a transtornavam eram, na verdade, lembranças do mundo mágico em que já estivera.
“Quem é você?”, pergunta feita á adolescente várias vezes na trama, guia Alice para que encontre a si mesma, para que encontre seu destino e o construa, para que explore sua própria força interior. Ao longo do filme é possível perceber o amadurecimento de Alice que desenvolve coragem e determinação. Alice constrói seu destino sendo a grande heroína da história, a cavaleira e campeã do mundo maravilhoso, mesmo sendo apenas uma jovem mulher. Tendo vivido e experimentado tanto, ao voltar para o mundo real, Alice rompe todas as barreiras de sua época e viverá como uma mulher empreendedora e sem marido – algo absurdo para seu tempo.
O filme, que é uma obra de arte em 3D, nos leva para dentro do universo das personagens de uma maneira surreal e fabulosa. Por alguns, Alice no País das Maravilhas foi considerado um longa feminista. Feminista? Apenas por que a personagem central – que é a heroína da narrativa – é uma mulher? Ou será por que o poder e a dominação no mundo do filme são disputados por duas mulheres – duas rainhas irmãs – e nenhum homem? As três figuras de maior poder e força são femininas. Quantos filmes com heróis e protagonistas homens são considerados machistas? Fica para reflexão.
Alice é independência, originalidade, coragem, genialidade e força dentro da frágil figura de uma jovem. A Rainha Branca, apesar da aparência dócil e frágil, também é detentora de grande alento. E a Rainha Vermelha que demonstra brutalidade e rudeza – por ser muito mimada – também é impetuosa e vigorosa. Os animais são figuras de grande importância no enredo: são considerados praticamente no mesmo nível das pessoas, são cidadãos livres e de direito.
Deve ser mesmo apenas em um País das Maravilhas o local em que todas as mulheres são tratadas em pé de igualdade, onde os animais não são judiados ou explorados. Quando Alice chega ao País das Maravilhas, o Chapeleiro Maluco afirma que todas as criaturas desse mundo são doidas. Que maluquice benéfica e mágica então... Onde podemos pegar um pouco dessa maluquice para o nosso mundo, onde podemos encontrar algumas das maravilhas desse país? Talvez se conseguirmos arranjar isso deixemos o nosso mundo real mais maravilhoso e mais doido. Ah, e como seriam encantadoras essas maravilhas e birutices...

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