sábado, 26 de junho de 2010

Noites perdidas

A noite chega sombria e fria
À noite vem rotina e neblina
À noite todo gato se anima
A noite vem pra trazer de novo o dia

Vem mudança, no escuro tudo muda...
Vem romance, no cinema rola um clima
Vem paixão, as estrelas se iluminam
Vem beleza, a imperfeição se amiúda

Tanto a lucrar, a produção tem que aumentar
Tanto a fazer, o trabalho tem que estar feito
Tanto a perder, usar a madrugada é o jeito:
Tanto a alcançar, perder o sono pra verba ganhar

Não há mais como sonhar muito na noite
Não há mais tempo pra perder
Não há outro caminho a percorrer?
Não há como guardar pro amor e pro descanso todas as noites?

domingo, 20 de junho de 2010

Heroína no país das maravilhas

A Rainha 
Vermelha, Alice e a Rainha Branca
“A única forma de alcançar o impossível é acreditar que é possível”. Essa é uma das primeiras frases que aparecem no filme Alice no País das Maravilhas, dirigido por Tim Burton, com roteiro de Linda Woolverton, baseado no livro homônimo de Lewis Carroll. Ela é proferida pelo pai de Alice quando ela ainda era criança.             
Desde menina, quase todas as noites, Alice tem um mesmo sonho com um mundo mágico, cheio de animais falantes, criaturas diferentes. Esse sonho a perturba e a faz pensar que está enlouquecendo. Em uma noite, a menina de cabelos dourados pergunta a seu pai se está ficando louca e recebe a resposta “Sim, você está louca. Mas vou te contar um segredo. As melhores pessoas são”.
O tempo passa, o pai da garota morre e a história é retomada com Alice (interpretada por Mia Wasikowska) aos 19 anos. Considerada distraída e esquisita pelas pessoas ao seu redor, a jovem Alice é conduzida para seu noivado arranjado. O lorde que seria seu futuro marido não dá atenção às suas divagações imaginativas e a reprime: “Seria bom guardar sua imaginação só para você. Na dúvida, fique calada”. Alice é, então, pedida em casamento; todos esperam que a donzela aceite ao ilustre pedido, mas isso não acontece.  Alice vai contra os costumes e valores morais de sua época, foge dessa imposição e, então, corre seguindo o Coelho Branco e cai num buraco que a leva ao País das Maravilhas.
Nessa terra mágica, a moça de longas madeixas cacheadas fica cercada de coisas, a primeira vista, impossíveis e, por isso, acredita que tudo não passa de um sonho. Nesse mundo subterrâneo, Alice encontra várias criaturas como o Gato de Cheshire, os gêmeos Tweedledee e Tweedledum, a Lebre e o Chapeleiro Maluco. Apesar de sua resistência inicial, Alice acaba sendo guiada para seu destino já previsto pelo oráculo da Lagarta Azul. Destino esse que envolve a missão de matar o Jaguadarte (originalmente Jabberwocky) usando a Espada Vorpal para restabelecer o império da bondosa Rainha Branca (Anne Hathaway) sobre a derrota da malvada Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter). Alice só consegue realizar aquilo para que foi designada quando se dá conta de que aquilo não era um sonho e que os sonhos de sua infância que a transtornavam eram, na verdade, lembranças do mundo mágico em que já estivera.
“Quem é você?”, pergunta feita á adolescente várias vezes na trama, guia Alice para que encontre a si mesma, para que encontre seu destino e o construa, para que explore sua própria força interior. Ao longo do filme é possível perceber o amadurecimento de Alice que desenvolve coragem e determinação. Alice constrói seu destino sendo a grande heroína da história, a cavaleira e campeã do mundo maravilhoso, mesmo sendo apenas uma jovem mulher. Tendo vivido e experimentado tanto, ao voltar para o mundo real, Alice rompe todas as barreiras de sua época e viverá como uma mulher empreendedora e sem marido – algo absurdo para seu tempo.
O filme, que é uma obra de arte em 3D, nos leva para dentro do universo das personagens de uma maneira surreal e fabulosa. Por alguns, Alice no País das Maravilhas foi considerado um longa feminista. Feminista? Apenas por que a personagem central – que é a heroína da narrativa – é uma mulher? Ou será por que o poder e a dominação no mundo do filme são disputados por duas mulheres – duas rainhas irmãs – e nenhum homem? As três figuras de maior poder e força são femininas. Quantos filmes com heróis e protagonistas homens são considerados machistas? Fica para reflexão.
Alice é independência, originalidade, coragem, genialidade e força dentro da frágil figura de uma jovem. A Rainha Branca, apesar da aparência dócil e frágil, também é detentora de grande alento. E a Rainha Vermelha que demonstra brutalidade e rudeza – por ser muito mimada – também é impetuosa e vigorosa. Os animais são figuras de grande importância no enredo: são considerados praticamente no mesmo nível das pessoas, são cidadãos livres e de direito.
Deve ser mesmo apenas em um País das Maravilhas o local em que todas as mulheres são tratadas em pé de igualdade, onde os animais não são judiados ou explorados. Quando Alice chega ao País das Maravilhas, o Chapeleiro Maluco afirma que todas as criaturas desse mundo são doidas. Que maluquice benéfica e mágica então... Onde podemos pegar um pouco dessa maluquice para o nosso mundo, onde podemos encontrar algumas das maravilhas desse país? Talvez se conseguirmos arranjar isso deixemos o nosso mundo real mais maravilhoso e mais doido. Ah, e como seriam encantadoras essas maravilhas e birutices...

domingo, 30 de maio de 2010

Esperança do futuro

Já reparou o quanto criança acredita facilmente nas coisas? Um dia desses falei pra filha de uma amiga da minha mãe (de oito anos) que, na minha casa, a gente comia grama refogada; falei que era quase igual couve. A garota, em sua inocência, primeiro achou estranho e disse que nunca tinha comido capim, mas disse que se fizessem ela ia comer. Depois disso, a criança foi até sua mãe para pedir que preparasse grama para que ela pudesse experimentar. Eu até me espantei com a facilidade com que se pode ludibriar uma criança, afinal, elas acreditam nos adultos, sem muito questionar.
Sendo tão fácil para que as crianças creiam nas coisas, para que fazê-las crer no que é ruim? Entendam-me, crianças têm que saber o que é verdade, mas há coisas que elas não têm necessidade de conhecer tão cedo. A desesperança é um desses conceitos que elas não precisam saber, por elas próprias, já no início da vida. Os meninos e meninas de hoje são os adultos de amanhã, eles trarão o futuro do planeta, e fazê-los acreditar e apoiar o que é bom, reto e indicado depende de nós, adultos.
É clichê dizer tudo isso, mas pôr em prática não é assim tão difícil ante a ingenuidade e inocência desses pequenos seres. De maneira simples e com pequenas ações é possível fazer os garotos quererem o que é melhor. É claro que, às vezes, as pessoas se desviam do caminho em que foram ensinadas (o que pode ser bom ou ruim dependendo do que receberam de ensinamento na infância).  Mas se, em sua meninice, ensinaram-lhe o que era bom, o que era o amor, o que era solidariedade e guiaram-lhe por essa rota, elas sempre terão, em seu interior, menos chance e aptidão para o negativo mesmo que venham situações terríveis sobre sua vida.
É importante usar a inocência e ingenuidade dos pequenos não para tirar proveito deles, mas sim para guiá-los pelos melhores caminhos na vida. As escolas e qualquer pessoa mais velha têm nas costas uma obrigação muito grande e séria: fazer de nossas crianças indivíduos de bem e de caráter. Comecemos hoje, falemos do que é bom e admirável para os pequeninos, façamos com que eles queiram isso. Só assim teremos chance de melhorar tudo ao nosso redor.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Raiva


Esmurrar um saco de pancada, quebrar o que ver pela frente, guardar tudo pra si, descontar nos outros, chorar ou gritar. São tantas as reações que podem vir subseqüentes a raiva. E esse sentimento pode resultar em mágoas, vinganças, ódio, depressão e outros resultantes negativos.
Irritar-se é normal, afinal, não vivemos num mundo perfeito e sempre haverá motivos para que nos enfureçamos: uma fechada no trânsito, alguém que nos incomoda, uma discussão, uma injustiça feita conosco ou com outras pessoas. Mas como liberar sua raiva sem prejudicar a si mesmo e, principalmente, aos outros?
Eis um desafio dos grandes. Cada pessoa tem sua própria maneira de liberar sua zanga, mas, ao exprimi-la acaba, muitas vezes, só trazendo prejuízos. Quem está irritado sempre trará fatos decorrentes disso ruins para si: para o coração, os sentimentos e a saúde. Mas o pior que pode acontecer é trazer efeitos ruins para as pessoas que não tem culpa de nada ou não tem nada a ver com o que nos causou a ira, principalmente, para as que mais amamos.
É necessária uma significativa dose de domínio próprio para manter-se em equilíbrio e não estragar as coisas. Quantas vezes já não desejamos voltar no tempo e apagar uma bobagem que fizemos (causada, às vezes, por um mau humor não controlado)? Certamente não foram poucas. De que adianta gritar, falar mal, ofender e quebrar as coisas? Colocamos o que estamos sentindo pra fora e, posteriormente, acabamos nos acalmando, mas isso não vale à pena se deixamos um rastro de devastação por trás.
Em um dos episódios da série infantil brasileira Castelo Rá-Tim-Bum, a personagem Penélope ensina ao Nino e às demais crianças do castelo como livrar-se de um mau humor. Algumas das dicas são: fazer algumas brincadeiras, fazer caretas engraçadas, pensar em algo bom. Os conselhos de Penélope acabam fazendo efeito e a meninada do castelo volta a se divertir.
Mesmo sendo um programa infantil, essas sugestões podem fazer bem para todos nós na hora da raiva. Não precisamos fazer uma brincadeira ou uma careta, mas, certamente, tudo isso seria uma distração. Talvez a melhor solução para lidar com esse mau sentimento seja esquecê-lo um pouco (mesmo que por alguns segundos ou minutos), distrair-se dele por um momento, e, depois, se necessário, enfrentar o problema que o causou com uma perspectiva mais sensata e racional. É claro que, na hora, é extremamente difícil de fazer, mas podemos nos acostumar a esse hábito.
Outra possibilidade para se livrar e usar bem o estresse é usá-lo para fazer algo produtivo: praticar um esporte, uma luta, escrever um texto, compor uma música, cantar... De muitas formas, a indignação pode ser inspiradora.
Essa é uma provocação a mudança feita por alguém que freqüentemente deixa sua raiva prejudicar a si e às pessoas ao seu redor. Estou redigindo esse texto após um momento de elevada irritação. Dessa vez, felizmente, eu consegui me controlar e usei o que sentir para fazer essa redação. Funcionou, e toda a minha fúria já passou.
Façamos um desafio próprio: não vamos deixar a raiva nos dominar, vamos dominá-la, vamos ser os donos da situação. Cabe a cada um descobrir uma forma de expressar a fúria sem prejudicar ninguém.  Estar totalmente isento do mau humor é impossível, então, vamos, pelo menos, aprender a conviver bem com isso.