terça-feira, 26 de maio de 2009

Poema com Putas


Roteiro Cinematográfico de Curta-Metragem baseado em texto de mesmo nome de Marçal Aquino

Poema com putas


Ontem
morreu a puta mais velha
da vila.
Tinha cabelos brancos,
um dente de ouro
e uma foto adolescente.
Nunca reclamou do tempo,
do governo
e do preço das coisas.
Mas, desconfio, tinha desertos dentro de si.

Foi vista um dia
Olhando uma nuvem.

Gostava de um vestido vermelho
que nem lhe servia mais.

Quando ela morreu
dois negrinhos barrigudos
olhavam o incêndio
num monte de lixo.

Dizem que foi a paixão
de um importante político
nos anos 40.
Teve jóias,
roupa nova,
convite pra festas
e pneumonia.
Sobraram-lhe as rugas:
michê de fim de expediente.
Votou em Getúlio
e sempre respeitou a sexta-feira santa

Paixão ela teve duas
Um manco de bigodinho
e um outro que voltou pro Norte.
O esmalte no dedão descascava
Como descascam certos dias
e a gente não vê.

Morreu só
a puta mais velha da vila. E uma doença
que quase a matou. Um cara perguntou
se ela era feliz. Outro, por que não casou.
E ela sabia
que um Domingo
rodeada de netos no subúrbio
é também uma prisão.

Preferiu a cerveja morna
e o São Jorge sobre a cômoda.

Morreu velha essa puta na vila.
Sem saber a idade ao certo
mas dos setenta chegou perto.

Morreu numa tarde anônima
com criança olhando incêndio
e cachorro magro
passeando na vila. Tarde comum
com tédio de vestido vermelho
e de varal de vila.
o mesmo tédio
de que é feita a fúria da primavera
e a esperança das putas.

Poema de Marçal Aquino

Época da ação:
Entre as décadas de 40 e 80
Local:
Vila de uma cidade antiga
Personagens:
Cléo
Deputado
Lola
Vic
Sol
Pipoqueiro
Jenivaldo
Padre
Coveiro
Janice
Padeiro
Moço 1
Moço 2
Figurantes

Roteiro:

CENA 01 – externa – rua – dia
Rua de vila antiga ao amanhecer, o chão está molhado mostrando que choveu durante a noite. Música lenta ao fundo.
Um carro de alto nível para a época para e dele desce uma mulher luxuosa de quem só se vêem as pernas e os pés (com sandálias e vestido vermelhos e unhas bem pintadas de esmalte de mesma cor) e um cavalheiro de sapatos e calças escuras. Os dois se despedem com um longo abraço. O homem entra no carro e vai embora.
Continua a mulher com passos elegantes. A música para. Ela acaba tropeçando em uma pedra e cai com as mãos no chão (também pintadas com esmalte vermelho) deixando aparecer o vestido vermelho decotado e o rosto bonito e jovem com os lábios marcantemente pintados de carmim, e os cabelos castanhos longos e lisos. A sua bolsa pequena e vermelha cai no chão espalhando todos os seus pertences (zoom em seu braço fino que traz uma pulseira grossa e de ouro enquanto ela começa a catar suas coisas). É possível ouvir risos ao longe, a música volta acelerada.
A mulher coloca suas coisas de volta na bolsa (um pente, um pequeno espelho, um batom vermelho, um maço de cédulas de alto valor, chaves, cigarros e uma embalagem de talco), se levanta rapidamente de modo elegante. Após poucos passos fica parada olhando para o céu. Passa por ali uma dona de casa simples de mãos dadas com sua filha (uma criança de uns oito anos), que a observa. Depois de muito olhar uma nuvem, ela entra pela porta de uma pequena casa. Ela bate a porta antiga com força, fechando-a.
A música de fundo fica cada vez mais baixa. Pela janela da casa (ao lado da porta), vê-se o quarto da moça e sua cômoda (em frente à janela que está aberta) onde estão uma foto de sua adolescência, uma foto de um homem de bigodes, um rádio antigo, muitas jóias, um esmalte vermelho, perfumes, batons, uma imagem de São Jorge e alguns envelopes de convites de festas abertos; em sua cama ao fundo estão bagunçados vários vestidos luxuosos.

CENA 02 – externa – rua – noite
Música lenta. Visão geral da mesma rua da primeira cena, com o chão também molhado ao anoitecer. Vê-se a mesma casa da primeira cena, e pela janela vê-se a cômoda no mesmo local de antes onde está uma foto de sua adolescência, uma foto de um homem de bigodes, um rádio antigo, um esmalte vermelho quase no fim, um batom, uma imagem de São Jorge, um copo de cerveja morna pela metade e várias contas para pagar; a cama ao fundo está apenas com uma coberta rasgada e um travesseiro velho.
Dessa vez mais velha (com rugas e cabelos curtos e brancos, aparentando uns 60 anos) e usando um vestido branco encardido decotado com algumas lantejoulas e tamancos pretos, a mesma mulher sai e tranca a porta da mesma casa (zoom em seu braço fino e velho trazendo a mesma pulseira de ouro). Estendido no varal do quintal está um vestido vermelho e velho (o mesmo que ela usava quando era jovem).
Ela anda séria até chegar à esquina perto de um bar. Ela acende um cigarro com o isqueiro que pega na bolsa (zoom em suas mãos com esmalte vermelho descascado em seus lábios envelhecidos com batom vermelho). Fuma por algum tempo. Quando termina, joga o toco de cigarro no chão e pisa em cima.
Enquanto retoca o batom, o pipoqueiro passa empurrando seu carrinho e acena para ela com a cabeça que responde com um sorriso tímido.
Outras mulheres mais jovens e com roupas vulgares e coloridas se aproximam com conversas escandalosas e risos e se posicionam na mesma esquina.
A mulher velha é Cléo, a puta mais velha da vila. As outras duas são Vic, Lola e Sol – as outras prostitutas do local. Elas param a conversa e olham de forma reprovadora para Cléo. A música para aos poucos.


Lola (sarcasticamente)
Oh, Cléo, você nunca desiste, não é?! Será que algum dia você vai perceber que está muito velha para a lida e vai se aposentar?            


Cléo (ríspida)
Não que isso tenha nada a ver com você, mas ainda dou para o gasto. Vocês ainda vão ser velhas como eu. E quando isso acontecer, o que vocês vão fazer? Não terão ninguém que lhes ajude e vão acabar numa vida decadente como a que dizem ser a minha. E, ainda assim, não reclamo da minha vida. Todo mundo fica velho e morre um dia mesmo.


VicIsso bem é verdade. Mas quando eu for velha, pretendo já ter saído dessa vida. Assim que eu conseguir o dinheiro para pagar as minhas dívidas e montar o meu salão, não viverei mais do meu corpo. O que vejo, é que a Cléo nunca viu esse tipo de vida como passageira.


SolA Vic é meio sonhadora, mas a gente não pretende viver disso até morrer mesmo não, é só até as coisas melhorarem.


CléoAi Sol... Pra que se iludir? Vocês acham mesmo que vão sair daqui algum dia? Daqui a alguns anos serão iguais a mim: putas velhas decadentes. Todas nós entramos jovens nessa vida porque era a maneira mais fácil que achamos para ganhar um sustento. Na juventude, consegui luxos que vocês jamais terão, mas tudo que vai volta. A minha beleza trouxe dinheiro e luxo; mas o tempo levou minha aparência e tudo o que com ela veio. E sou conformada. Esse tipo de vida é mais uma profissão, não digna, mas é um serviço. E eu não vejo velhos que vivem bem. Uma vida cercada de netos em um subúrbio qualquer não seria mais feliz. Ainda prefiro levar a vida assim me virando como dá e ainda tenho saúde. Enquanto der pra levar eu vou. O que eu preciso é sobreviver e isso estou fazendo...
Inicia uma música baixa e lenta. Cléo interrompe a conversa e acena animadamente para o senhor (barrigudo e despenteado com calça e camisa sociais desajeitadas) que sai do bar. Ele se aproxima cambaleando de tão bêbado. Ela sorri mostrando os dentes tortos e um único dente de ouro.
JenivaldoBoa noite senhoritas!


Lola
O que vai ser pra hoje, seu Jenivaldo?


Jenivaldo
Bom, meninas, uma de vocês viria bem a calhar. Mas já gastei quase tudo o que tinha lá no bar. A única com quem posso negociar é a Cléo... Cléo?


As prostitutas jovens suspiram de forma reprovadora e Cléo abre um sorriso medonho.
CléoEntão, vamos?


Os dois saem da cena de braços dados andando pela rua. Jenivaldo se escora em Cléo pela sua dificuldade de andar alcoolizado. A música diminui enquanto a tela escurece.

CENA 03 – externa – lixão – dia
Música dramática. Sol forte de meio dia. Visão geral de um incêndio em um lixão. Na rua dois meninos negros e barrigudos observam e apontam. Um cachorro vira-lata magrelo passa por ali também.
Encoberto por uma árvore, aparecem apenas os olhos de Jenivaldo que observam o fogo. Mostra-se sua mão enquanto segura um cigarro de palha que queima.
Zoom na fumaça preta que sobe do lixão para o céu de encontro com uma nuvem. Som de sirene ao longe.

CENA 04 – externa – cemitério – dia
Cai uma chuva fina enquanto um caixão de madeira pobre é carregado por quatro homens de preto. Pessoas enlutadas caminham em marcha fúnebre. Nenhum ruído além da chuva caindo e dos pés que pisam na rua. O caixão é depositado no local apropriado para o enterro. Música triste sobrepõe todos os sons enquanto um padre simples diz o seu sermão. Lola, Vic e Sol são as únicas que choram enquanto seguram um retrato de Cléo. Jenivaldo (de chapéu escuro) e o pipoqueiro também parecem abalados. Após o enterro, flores pobres são depositadas e todos se vão menos as três putas, o pipoqueiro, um casal (Janice e seu marido, o padeiro), dois moços e o coveiro que ficam ao redor do túmulo. Música de fundo muito suave.


Lola (baixo)
Que tragédia. Coitada dela... Pobrezinha. Tinha virtudes.


Vic
Não exagera, Lola. Ela não virou santa só porque morreu. Não sei por que as pessoas têm essa mania de falar de morto que nem se fosse de santo.


LolaNão estou falando dela que nem uma santa, mas acho que não se deve mexer com os mortos e eles merecem respeito já que não estão mais aqui para se defender. E no fundo, acho sim que ela era boa. E tenho pena porque a coitada sofreu tanto.


SolIsso é. Teve uma vida dura, sofrida até na velhice e depois... Morrer desse jeito é sofrimento demais. A coitada deve ter sentido tanta dor. Ser queimada viva deve ter sido o inferno na terra.


CoveiroEla teve o que mereceu. Pra mim, puta tem mais é que ser queimada. Deus mandou o castigo que ninguém deu pra ela em vida, ainda mais agora que o diabo a carregou.


As mulheres olham para ele indignadas.


SolNo enterro dela você não tem direito de falar assim, e quem merece ser carregado pelo diabo é o senhor. Vai ...


O pipoqueiro dá um passo à frente e a interrompe com um gesto.      


Pipoqueiro
Olha senhor, tenha piedade. Você já fez o seu trabalho. Não queremos confusão, então não se meta e vá embora, por favor. Ninguém aqui é santo e ninguém pode julgar ninguém.


Coveiro
Nem se preocupe, eu vou embora mesmo. Não quero chegar nem perto do tipo dessas aí e nem da defunta a não ser que seja pra ver pegarem fogo. E o senhor que nem tem fama de imoral, devia ir embora agora também.


Pipoqueiro (baixo)
Eu vou embora quando achar que devo.


O coveiro se afasta enquanto as pessoas o olham pelas costas.


VicQue homem mais estranho... Mais estranha ainda foi a morte da Cléo. Da última vez que a vi, ela estava na esquina comigo e com as meninas. Ela saiu com o seu Jenivaldo. E ontem, a notícia de que ela havia sido queimada no lixão estava espalhada. Quem será que fez isso com ela?

Moço 1

Pode ter sido qualquer um ou pode ter sido um acidente. Tem muita gente que tem aversão a a (gaguejando) mulheres dessa profissão. Parece que esse Jenivaldo foi o último a vê-la. Alguém já falou com ele para ver o que ele sabe?


PadeiroAinda não, que eu saiba. Ele acabou de ir embora. Podemos ir falar com ele para averiguar.


Pipoqueiro
Se quisermos saber alguma coisa teremos que nos virar porque o delegado já falou que não vai perder tempo investigando morte de puta. Ele achou foi bom ela ter morrido. Vamos atrás dele?


A música aumenta. Zoom no túmulo de Cléo enquanto eles se afastam.
       


CENA 05 – externa –rua– dia
Música lenta. Sol forte de meio dia. As pessoas andam pela rua conversando com passos arrastados demonstrando cansaço.
Sol
Vou sentir falta da Cléo, falta de ver ela no ponto todas as noites e da força e armadura que eu via nela. Eu sentia pena dela por ser uma puta velha quase sem clientes. Mas ela nunca se apresentou como digna de pena. Sempre forte...


Pipoqueiro
Sempre forte e sempre saudosa. Ela já foi prostitua de luxo. Uma vez, ela me contou de um político que a amou nos anos 40. Na época ela era bonita, tinha tudo o que queria. Era disputada pelos homens e não passava necessidade. Mas o tempo foi passando, e o deputado se cansou dela. Arrumou uma mais nova e a largou na vida.


Lola
Safado. Os homens são todos safados. Vem e usam a nossa força, nossa juventude e depois nos largam. E não digo apenas de mulheres de nosso tipo. As casadas também sofrem por isso...


Janice
Ah! Ela sempre teve uma vida dura. Eu a conhecia desde que era criança, pois cresci aqui na vila. Eu me lembro de como eu a achava bonita e de como as pessoas a julgavam mal. Quando ela teve pneumonia, teve que se virar sozinha. Era forte. Não sei de onde tirou forças para se recuperar.


Padeiro
Sempre que podíamos eu e a Janice a ajudávamos. Nunca vimos diferença nela pelo que ela fazia. Era honesta. Mais de uma vez me devolveu o troco a mais que lhe dei quando comprava na padaria. O que mais você sabia dela, Janice?


Janice
Ela era católica. Sempre respeitou a sexta-feira santa. Também sei que votou em Getúlio. Ganhou um concurso de beleza em um clube em sua mocidade.


Moço 1
Se ela era tão bonita quando nova, por que será que nunca se casou?


Sol
Acho que ninguém sabe ao certo, mas acho que foi por opção ou por desilusão amorosa. Pensava que ela sabia que o casamento é também uma prisão. Queria saber o que ela realmente pensava...


Moço 2
E ela era feliz?


Vic
Ela teve a vida que escolheu. E acredito que ela era satisfeita. Não era feliz o tempo todo, mas teve alegria em muitos momentos. Ela era conformada com o que tinha. Nunca reclamou do tempo, do governo, nem dos preços das coisas. Vai ver era feliz...


Pipoqueiro
Vai ver era feliz. Mas, desconfio, tinha desertos dentro de si.


LolaE o vestido vermelho que nem lhe servia mais... Vocês se lembram dele sempre pendurado no varal mesmo que ela não pudesse mais vesti-lo?


Janice
Uma vez, quando eu era criança, junto com minha mãe, eu a vi chegar pela manhã usando aquele vestido vermelho e a vi olhar por um longo tempo uma nuvem...


Sol
Um dia me contou de seus amores. Só amou dois homens na vida: um canalha que foi para o Norte e nunca mais deu notícias e um manco de bigodinho que ela não me contou quem era. Triste. Teve tantos homens e só amou dois. E com nenhum deles ficou.


O grupo continua andando pela rua enquanto a música de fundo aumenta.

CENA 06 – externa –rua– dia
Música suave. O grupo para em frente à casa de Cléo. Jenivaldo está sentado na calçada cabisbaixo fumando um cigarro de palha, com uma garrafa de bebida barata ao seu lado no chão.


Pipoqueiro
Seu Jenivaldo, estávamos mesmo a sua procura. O senhor está bem?


Jenivaldo
Estou pensando apenas. Eu gostava da Cléo. Aquela velha foi minha companhia de muitas noites. Ninguém da vila vai esquecer mais dela depois disso.


Padeiro
Hum... Quando foi a última vez que o senhor a viu em vida?


Jenivaldo
Bom... Foi antes de ontem. Eu a deixei aqui na frente da casa dela no fim da noite. E hoje fiquei sabendo pelo jornal da cidade o que aconteceu quando vi a manchete no jornal.
Jenivaldo desdobra o jornal que carrega em baixo do braço onde se lê “Morreu ontem a puta mais velha da vila”.
PadeiroBom... Mais um que sabe tanto como nós. Vamos para a padaria? Café e pão de queijo por conta da casa.


Lola (com um sorriso fraco)
Estou faminta. Vamos logo.


Música sobrepõe todos os sons. Pela janela da casa, de onde se vê a cômoda com as coisas de Cléo, zoom em sua foto de adolescência. Todos eles continuam a caminhada em direção a padaria.

CENA 07 – interna –padaria– dia
Música diminui quando o grupo chega à padaria. O carrinho de pipoca está encostado na parede do comércio simples. A padaria tem paredes amarelas e desbotadas, balcão pequeno com pães e roscas. Todos se sentam com feições mais conformadas. Janice e o padeiro servem pão de queijo e café para todos.


JaniceAfinal, o que vocês sabem sobre o incêndio? Também só sei o que saiu no jornal.


PipoqueiroConversei com dois neguinhos barrigudos que testemunharam o incêndio. Ninguém sabe como a Cléo foi parar no lixão. Mas parece que o fogo começou por causa de toco de cigarro.


Vic
Talvez dela própria. Ela sempre fumou. Quem são esses neguinhos?


Pipoqueiro
São dois irmãos que moram naquele bairro pobre perto do aterro. Ainda são crianças, não souberam explicar muita coisa do que aconteceu aquela tarde.


Sol
Sinto pena afinal. Podia ter vivido mais. Podia ter sido eu daqui alguns anos como ela mesma disse uma vez. Alguém sabia sua idade ao certo?


JenivaldoSó sei que dos setenta chegou perto.


PipoqueiroObrigado pelo café dona Janice.


Jenivaldo (com voz arrastada)
Resta pelo menos o consolo de que alguns se lembrarão dela com afeição... Marcou a muitos de muitas formas. A Cléo já estava velha mesmo. Mais dia, menos dia ia sair desse mundo. Melhor para ela morrer assim, do que morrer de doença ou de velhice. Ela não vai ser lembrada apenas como a puta mais velha da vila que definhou. Será uma lenda. A puta mais velha da vila que morreu incendiada. Memorável. Algo nobre para uma puta, não é?


Lola
Não acho não. Aposto que de onde ela está, está praguejando contra quem fez isso com ela. Cléo sempre deu valor à vida. Se não fosse assim, sei que já teria se matado pelos sofrimentos que viveu.


Vic
Maldito seja o desgraçado culpado por sua morte. Vai pagar caro por isso no inferno.

Pipoqueiro

De qualquer forma, o que está acabado está acabado. Morreu. Nada mais adianta. Morreu e só. Se bem ou se mal, tanto faz. A morte, pra todo mundo, tem o mesmo sabor amargo de bebida que desce queimando e não para mais. 


Jenivaldo faz cara de desprezo. Todos se levantam e se despedem. Janice e o padeiro ficam na porta da padaria abraçados. O pipoqueiro pega seu carrinho de pipoca e segue com as três putas. Jenivaldo e os dois moços seguem na direção oposta.

CENA 08 – externa –rua– dia
Música calma. Pôr do sol. O pipoqueiro, Lola, Vic e Sol andam juntos pela rua.
Lola
É... Morreu ontem a puta mais velha da vila. Ela saiu da lida e da vida de uma vez só. Aposentou.
Vic
Sobramos só nós três com seu trabalho. E talvez daqui a algum tempo uma de nós seja a puta mais velha da vila...
SolPensando melhor nela agora, só tenho pena de sua morte, que foi sofrida e dolorosa. Mas de sua vida não. Realmente ela teve a vida que ela quis e que foi mais livre que a de muitas pessoas ditas de respeito.
Pipoqueiro (empurrando seu carrinho de pipoca, se separando das putas)
Morreu só a puta mais velha da vila...

CENA 09 – externa –cemitério– noite
Música melodramática. Entardecer. Jenivaldo anda sozinho pelo cemitério assoviando cambaleante segurando uma garrafa de cachaça na mão esquerda e o jornal do dia na mão direita. Para de caminhar quando chega ao túmulo de Cléo. A lápide já está pronta onde se lê apenas “Cléo”. Jenivaldo se senta ao lado da cova e olha para o céu estrelado.


Jenivaldo (sussurrando)
Cléo, Cléo. Teve mais prazeres que as mulheres casadas, mais desgostos que as solteiras e mais experiências que as putas. Você sabe do favor que lhe fiz encurtando sua jornada? Agora você jamais será esquecida.
Ele coloca o jornal do dia e a cachaça em cima do túmulo como oferendas para ela.
Jenivaldo Não vou te esquecer. Eu prometo. Afinal você foi a minha Cléo. Amo mais a você do que a minha atual esposa, sabia? E é exatamente por isso que você teve que morrer. Sou ciumento e egoísta demais para deixar uma mulher que amo vivendo e se deitando com outros. E só havia essa maneira de lhe ter guardada para sempre. Agora posso confiar em você, assim como confio também na minha ex-mulher que me deixou viúvo. Tive que matar duas vezes pelo meu amor. Agora ninguém mais vai lhe tocar, nem mesmo eu e se eu tocar, você nem vai sentir. Esse é o preço. Mas não conte a ninguém. Esse é o nosso segredo. Se souberem disso tenho que voltar pra aquele lugar horrível e branco em que me internaram uma vez. Sigilo total, viu? Agora descanse em paz que daqui pra frente é só isso. Dormir indefinidamente... Não se esqueça de mim, sou o seu Jenivaldo.
(Ele tosse um pouco).
Sei que você não está na sua forma original, o fogo te mudou como muda a todos que passam por ele. O que restou de você é meu. E eu volto amanhã à noite pra lhe levar daqui e enterrar na minha casa junto com a minha outra amada, a Laudicena. Seus corpos vão terminar juntos embaixo da minha cama, enquanto eu assisto como platéia a sua decomposição carnal. E se disserem que eu sou doido, não acreditem não. Doidos não amam. E eu amo você e a Laudicena, tanto que as matei.
Jenivaldo beija a lápide de Cléo e se afasta do túmulo andando lerdamente até a saída do cemitério. O vento vem muito forte e derruba a garrafa de cachaça no túmulo de Cléo, faz voar para longe o jornal e o chapéu que estava na cabeça de Jenivaldo. Já no portão do cemitério, ele se vira e olha para o túmulo de Cléo.


JenivaldoAté mais, querida.

CENA 10 final – externa –rua– dia
Música lenta. Ao amanhecer, o pipoqueiro anda empurrando seu carrinho pela rua.
Pipoqueiro
A puta mais velha da vila...
Pipoqueiro (sua voz agora apenas como narração)
[Visão geral da vila] Morreu numa tarde anônima com criança olhando incêndio e cachorro magro passeando na vila.
[Visão do quintal florido da casa de Cléo onde o vestido vermelho balança no varal por causa do vento]. Tarde comum com tédio de vestido vermelho e de varal de vila.
[Visão pela janela da cômoda velha com os pertences de Cléo e o mesmo copo de cerveja quase acabado] O mesmo tédio de que é feita a fúria da primavera e a esperança das putas.
Música aumenta. Visão final do céu ensolarado. Zoom em uma nuvem. 

Fim

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