Era uma segunda-feira azul e verde cinzenta mesmo sem chuva. Eu estava estendendo a roupa que mamãe lavara no varal e de longe escutava seus gritos “Segura direito, sacode antes de pendurar se não na hora de passar ninguém dá conta...”. Era a primeira vez que via o céu daquela cor. Colocando minhas mãos amarelas voltadas para cima, o contraste era brilhante, e em contraste com meu vestido de bolinhas rosa desbotado também não ficava um espectro de cores inferior. Sempre admirei as cores, como se pudesse senti-las. Como se a visão não fosse suficiente para minha vontade por elas. As pedrinhas de barro na grama embaixo de mim estavam um pouco mais escuras naquele dia, acho que por causa do céu.
Não sei por que, mas isso me fez lembrar Clarisse, a vizinha da casa em que minha mãe trabalhava, no dia anterior. Ela estava especialmente bonita, ela sempre fora mais bonita do que eu, muito mais. Eu sempre estava desbotada perto dela. Mas ontem ela não vestia nada de especial, era uma de suas roupas mais simples; vestia um macacão sem manga verde grama que ia até a metade das cochas. Apesar de velho, a diferença dos tons em relação com seus longos cabelos cor de mel trançados era magnífica. Ela parecia meio ruiva. O macacão era exatamente como a grama, não exatamente, mas lembrava. Seus cabelos estavam como aquele vermelho marrom da cor do barro. Lindo. E a pele morena, brilhava como o por do sol. Como eu poderia não me sentir descorada? Minha pele era amarela, mas amarelo mesmo. Nem branca, nem preta, nem morena. Amarela, pálida, sem graça, dizia-se anêmica.
Isso não parecia incomodar Clarisse que era minha melhor amiga. Naquele dia ela me contou que ficara sabendo que Pedro, o filho do dono da padaria daquela rua, gostava de mim. Mas por quê? Ele não era o menino mais bonito de todos, nem o mais forte, nem o mais inteligente. Mas era exatamente de quem eu achava que gostava. Era a única pessoa que me fazia não ver as cores acima de tudo. Quando o via, eu não via ou sentia o resto ao meu redor. Só havia ele, independente das cores. Então eu o olhava por partes toda vez que ia compra pão pela manhã para poder analisar as cores, porque olhando para ele todo eu não era capaz disso.
Cada dia uma coisa diferente. Um dia só as mãos – e eu percebi que eram meio rosadas, mas deixando mostrar o azul das veias . Noutro, só olhei seu cabelo – era de uma mistura de marrom, amarelo, laranja e vermelho tudo junto, mas a sombra que faziam os cachos deixava a luz penetrar e fazer algumas outras sombras diferentes. O dia em que olhei só seus olhos quase tive uma vertigem, porque percebi que ele também olhava para os meus. Bom é o normal não? Quando alguém te encara, você encara de volta. Eram verdes misturados com azul, como se houvessem várias linhas uma verde outra azul. Perto da pupila havia uma beirada amarela, linda totalmente dourada que vinha das linhas. Os cilhos grandes e marrons faziam com que parecesse que o mundo inteiro estava lá dentro... E o dia em que olhei só a boca me fez passar o dia inteiro sorrindo. Era rosada, macia, tinha umas covinhas. Não parecia normal, parecia que haviam sido desenhadas. Como podia ter aquele formato. E cada vez que ele sorria, deixava mostrar os dentes muito brancos. Alguns meio tortos, ele precisava usar aparelho diziam uns. Mas para mim não precisava mudar nada. Era simplesmente radiante em contraste com sua pele branco meio amarelada no fundo...
Bom, Clarisse me contou que ele me expiava todos os dias pela cerca viva dos fundos do quintal. Sempre escondido, mas fora descoberto por seu próprio pai que o seguira um dos dias que ele saiu de casa. E ele muito linguarudo, não conseguiu não falar sobre aquilo com quase todos que conheciam seu filho.
Como eu nunca havia percebido? Talvez eu estivesse muito distraída olhando para todas as cores .
Tentei me concentrar em não me fascinar pelas cores naquele momento. Terminando de estender toda aquela roupa no varal eu pude ouvir passos, não passos exatamente, mas algo grande quebrando os galhos e as folhas secas do lado de fora da cerca.
Olhei discretamente para trás, tentando ver o autor daquele ruído. Lembrei do que Clarisse me contou no dia anterior. E então eu encontrei, de longe, os seus olhos grandes que também me encontraram. Eu não falei nada. Mas ele falou. Falou meu nome. E eu não pude resistir. Corri ao seu encontro. Mas ao chegar a cerca já era tarde demais. Ele correu muito.
Gritei, gritei seu nome, gritei pra me esperar. Pulei a cerca e o encontrei senado na esquina. Ele dessa vez ele correu de novo, mas na minha direção. Fiquei paralisada. Só senti quando ele chegou. E aí eu não precisei ver mais nada, só fechar os olhos para ser feliz. Eu o amava e ele correspondia. E nada mais existia.
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