Sou uma tesoura sem ponta e vou contar minha história. Tudo começou quando uma professora do primário me comprou na papelaria da esquina. Eu era nova, bem afiada. Cortava quase qualquer coisa. Pobres dos papéis... Eles me temiam, pois sabiam que não podiam me resistir.
Eu era a melhor tesoura daquela escola, mesmo assim era guardada numa caixa com muitas outras tesouras e grande parte delas sentia inveja de mim. Eu era disputada: os alunos até brigavam para cortar comigo.
O tempo passou e com ele meu bom corte também. Cada vez mais fui sendo deixada de lado. Passei a ser a última opção, me aposentaram. Deixaram-me no fundo da caixa. Rejeitada e acabada. Pelo menos eu não estava sozinha nunca, sempre havia outras tesouras para minha companhia.
Tudo o que me fizeram passar me deixou com muita raiva. Isso não ficaria assim, eu tinha certeza. E não ficou. Da última vez que a professora que me comprou veio usar a caixa de tesouras eu entrei em ação. Pulei até os cabelos dela e comecei a picotar. Juntei todas as minhas forças e meu corte de repente ficou bom novamente. Ela gritava desesperada. Vários tufos marrons caiam no chão a todo instante. Foi muito engraçado. Deixei-a quase careca. Mas ela mereceu, não?! Ela que me usou, tirou minhas forças e depois me descartou. Mereceu.
Resolvi abalar tudo mesmo. Eu já havia desrespeitei o código de discrição dos objetos e sabia que poderia ser punida pela Corte das Coisas mesmo. Então agir mais um pouco não faria grande diferença. Não me importo muito com a punição porque valerá à pena.
Engraçado mesmo foi o que aconteceu depois. Todas as minhas colegas tesouras me apoiaram e saíram da caixa para cortar tudo o que viam pela frente. Todos da escola fugiram assustados. E agora o colégio é só nosso. Todo dia tem festa das tesouras.
Moral da história: nunca subestime a força daquilo ou de quem você acha que já perdeu sua serventia só por causa da idade avançada. Você pode se surpreender.
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