sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Quem gosta de MPB?

“Ah... Eu gosto de Chico, Caetano, Elis... MPB no geral...”
Posso admitir que sempre que o tópico de conversa era gosto ou estilo musical e eu via uma pessoa com menos de 30 anos declarar sua preferência por Música Popular Brasileira eu já a julgava como “pseudo cult” (ou seja, alguém que anunciava um gosto por MPB maior que o de fato por querer parecer intelectualizado e elitizado). Preconceito meu por pura falta de saber.
Depois de ler “Noites Tropicais – solos, improvisos e memórias musicais” do Nelson Motta, minha concepção começou a mudar com relação a isso. Por causa do panorama de misto da história da sua vida e história de um período da música brasileira (incluindo o período de surgimento e fortalecimento da Música Popular Brasileira), pude conhecer mais sobre vários fatos e eventos marcantes que se desenvolveram junto com esse gênero. “Noites Tropicais” foi de uma leitura extremamente enriquecedora que recomendo muito, principalmente para as novas gerações que não vivenciaram essa época e não desfrutam do conhecimento desses anos.  A obra de Nelson Motta pode ser um feixe de luz em meio à escuridão para conhecer e melhor entender a música popular brasileira pela visão de alguém que foi realmente íntimo da MPB.
E, afinal, de onde veio a MPB? Segue um breve histórico:
No Brasil, o que seria uma música popular teve seu início com influências africanas trazidas pelos escravos. Fruto disso são o Lundu (um tipo de dança brasileira com raízes africanas) e o Cateretê (tipo de dança brasileira com raízes indígenas e africanas).
Na música popular, pode-se destacar também a Modinha (canção sentimental simples de origem portuguesa). A partir e por influência dela, surgiu o Choro (também de caráter sentimental e baseado no improviso). Com o surgimento e popularização do rádio como meio de comunicação, a Era do Rádio possibilitou a popularização de alguns artistas de música popular.
O Samba (que tem raízes africanas) era e é um gênero musical altamente difundido no Brasil. Dentro disso, o Samba Canção também teve enorme sucesso. A Bossa Nova surgiu como uma nova forma de se cantar e tocar Samba.
Em 1957, a Bossa Nova estava encantando o público com seu ritmo inovador. Artistas como João Gilberto (que canta “Chega de Saudade”), Vinícius de Morais e Tom Jobim marcaram a época e eram favoritos do público. Com o tempo, as influências do Jazz nesse estilo se tornaram cada vez mais fortes. Com mais tempo bebendo e respirando Bossa Nova, o público (boa parte dele pelo menos) se cansou e procurava por algo novo.
Foi aí que a nova moda da vez, passou a ser um estilo que surgia: o “samba moderno” ou “música popular brasileira”. A tropicália e a Jovem Guarda também eram movimentos vigentes na época e junto com a música de protesto, nacionalista, rock e regionalismos colaboraram para o surgimento da MPB. Além disso, é importante citar que o movimento estudantil na época era substancial e o seu engajamento influenciou várias músicas pelo contexto do regime militar vigente a partir de 1964.
O marco do início da MPB é a interpretação da música “Arrastão” (de Edu Lobo e Vinícius de Moraes) por Elis Regina no I Festival de Música Popular Brasileira, em 1960. A história da Era dos Festivais começou quase que concomitante com a da MPB. Músicas vencedoras do II Festival de Música Popular Brasileira também foram consideradas o marco entre o declínio da Bossa Nova e o crescimento da MPB: “Disparada” (de Geraldo Vandré) e “A Banda” (de Chico Buarque).
A MPB continuava com artistas que também faziam parte da Bossa Nova e do que seria chamada a “2ª geração da Bossa Nova”. Por causa dos festivais de música televisivos, o espaço para a popularização e crescimento de novos artistas foi bastante ampliado. E nesse contexto, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Chico Buarque, Gilberto Gil e Tom Zé fizeram grande sucesso na época. Os artistas que eram natos da Bossa Nova também englobaram o surgimento desse gênero e por isso muitos consideram que houve uma mutação da Bossa Nova em MPB.
      
E o que é MPB?
Eis uma difícil e complicada definição por englobar muita coisa e ter influência de muita coisa. A resposta mais simples: MPB é um gênero musical. Uma forma de melhor entender é dizer o que não é MPB e alguns pontos a seu respeito.
Música Popular Brasileira é diferente de “música do Brasil”: é um estilo musical dentro da música brasileira assim como o Funk, o Samba e tantos outros.
Tanto a Bossa Nova quanto a MPB surgiram na classe média e na elite, mas com o tempo também se difundiram nas camadas mais populares.
Hoje, a MPB ainda existe como gênero ativo na música do Brasil, não com a força que tinha nos primórdios, mas continua. Boa parte dos artistas que a marcaram está viva e não interrompeu sua produção em MPB. Porém infelizmente o gênero está fraco em popularidade quantitativa quando comparado a outros gêneros.
No final de seu livro “Noites Tropicais”, Nelson Motta, afirma que se desiludiu com a música no Brasil quando percebeu que a MBP estava se enfraquecendo dando lugar as duplas sertanejas; por causa disso ele foi trabalhar com música nos Estados Unidos, como produtor. E realmente, comparando com outros estilos a MPB sempre foi considerada música de qualidade, elitizada e intelectualizada, mas não realmente algo que esteve ou está no gosto majoritário da massa.
E o que eu aprendi com o conhecimento que adquiri sobre essa área com leituras relacionadas e ao cursar a disciplina Comunicação e Música da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília?
Eu parei de ter preconceito contra quem diz que gosta de MPB. Parei de olhar de longe e deixar de lado esse gênero só porque não tinha conhecimento sobre ele. MPB não é uma música para intelectuais elitizados como eu pensava. É um tipo de música que hoje não é tão popular assim: não bate recordes de vendas de discos e nem tem festivais gloriosos. Numa pesquisa de gosto popular, certamente Calypso, duplas do sertanejo e sertanejo universitário teriam maior êxito. Mas ainda assim o estilo sobrevive com altíssima qualidade. Conhecendo mais sobre o histórico desse estilo musical, suas origens e influências e artistas, passei a admirá-lo e, certamente todos os que se interessarem e buscarem aprender sobre esse tipo de música terão a mesma postura.

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